De repetente, o país acordou do torpor estival, e na sequência de uma entrevista dada pelo
Procurador Geral da República, onde este ilustre magistrado judicial afirmava que até o seu telemóvel poderia estar sob escuta, as cerca de dez milhões de almas que ocupam este rectângulo à beira mar plantado, começaram a suspeitar, em bloco, que também o seu “cantante” pudesse estar a ser devassado, pois, de 2002 até hoje, terão sido efectuadas cerca de 52 mil escutas.
No melhor estilo, de uma forma desembaraçada e acutilante, lá foi o Procurador Geral à Assembleia da República, ser submetido a uma verdadeira prova oral sobre as escutas telefónicas e sobre as declarações prestadas na imprensa, sendo do consenso geral que saiu dali em ombros, tendo deixado incomodados e agastados alguns dos interpelantes, o que foi perfeitamente visível na forma como se remexiam na cadeira, e nas respectivas expressões faciais.
Conseguindo, assim, chamar a atenção para uma questão que desde há muito tempo permanecia na penumbra, fazendo soltar um jorro de notícias e de denúncias, mais ou menos anónimas, cujas consequências ainda são imprevisíveis.
Sendo o tema de conversa dominante, nos cafés, nos transportes públicos, nos restaurantes, nos locais de trabalho públicos e privados, não faltando quem fale, prontamente e sem hesitações, de alguma situação similar em que se tenha visto, ou ainda esteja envolvido. De repente, os milhões de detentores de telemóvel que habitualmente deambulam pelo extremo oeste da Península Ibérica, começaram a ouvir uns estalidos esquisitos quando estabelecem os mais variados tipos de ligações, sejam elas perigosas ou não, de forma análoga a uma epidemia de fraca visibilidade mas de grande intensidade.
E, para adensar este clima de suspeição generalizada, o público, em geral, ficou a saber aquilo que alguns, em particular, já sabiam ou desconfiavam: além das entidades policiais, há detectives particulares a fazer escutas, nas mais diversas modalidades e para os mais variados fins, há aparelhos de escuta que podem ser adquiridos ao virar da esquina, e pasme-se, consta que alguns destes detectives privados trabalharão para serviços oficiais em regime de “outsourcing”.
Quanto a esta última vertente vai ao encontro das tendências da privatização das funções do Estado tão amplamente propaladas pelos governos ocidentais, muito bem espelhado no livro “Entidades Privadas com Poderes Públicos”. Mas, nunca se pode perder de vista que foi essa ânsia de privatização que, em grande parte, nos EUA, a pátria de todas as liberdades e que está divinamente encarregue de as difundir à escala global, foi responsável pela amplitude da devastação provocada pelo furacão Katrina em Nova Orleães, devido ao desinvestimento do governo federal na satisfação do núcleo essencial das necessidades básicas dos cidadãos.

Também, o filme “Corrupção”, que estreou esta semana, se inicia com uma referência às escutas telefónicas. Devido às expectativas criadas, não resisti à tentação de me sentar numa sala de cinema e assistir à sua exibição. Ao contrário das notícias que têm sido veiculadas, o filme está muito bem concebido, e eu que até nem sequer li o livro, compreendi perfeitamente a mensagem que o mesmo quer transmitir. Alegra-me o facto do filme, não obstante todos os ventos e marés contrários, conforme foi divulgado por diversos órgãos de comunicação social, ter conseguido encher as salas de cinema onde foi exibido. O que, para desespero de algumas mentes, mais ou menos brilhantes, não sucede com a maior parte das películas nacionais e estrangeiras.
Gostei ainda de ver, pelo ridículo da situação, alguns “habitués” do nosso “mapa cor-de-rosa” a tecerem considerações menos abonatórias sobre a película, as quais não são muito difíceis de compreender, tendo em conta os contornos do filme. E, num dos casos, esse comentário foi antecedido por uma referência elogiosa à forma como se desenrolou o último enlace matrimonial do Presidente do Futebol Clube do Porto, o qual até contou com a presença de um ex - Presidente da República; enquanto, de acordo com a opinião do ilustre comentarista, a festa de estreia do filme foi o expoente máximo da parolice, tendo sido, apenas, servidos pedaços de morcela e farinheira aos distintos convidados. Rematou com uma frase lapidar: “arquive-se o processo e o filme”; só que este último encerra com a expressão “continua”. Espero, muito sinceramente, que o “continua” consiga prevalecer sobre o “arquive-se”.
Até parece que ainda estamos naquele Portugal bafiento e campónio que o Miguel Sousa Tavares descreve no “Rio das Flores”, o qual, literalmente, devorei de fio pavio. Por isso, sinto-me como o Diogo Flores, com uma necessidade premente de ir para além dos horizontes deste ensolarado rectângulo, onde, cada vez mais, não se vive, mas sobrevive ou vegeta, tudo se subordinando ao “talent de rien faire et bien paraitre”.
© Vladimir da Lapa