26 de Setembro de 2011

"Insista, persista e assim você conquista"

Desde que a crise se começou a desenhar no horizonte que a minha vontade de escrever se começou a esfumar progressivamente até que desapareceu totalmente. Tentei toda a espécie de antídotos de receita livre e prescritos por reputados especialistas, musas inspiradoras, frequentei os melhores médiuns, tarólogos, enólogos, bem como mais uns não sei quantos “ólogos”, e nada de inspiração.


Apesar de todas estas tentativas, a máquina continuava sem querer arrancar, não conseguia passar nem os factos, nem os actos para o papel, depois de lhe ter dado umas pintalgadas pessoais. Mas, numa das vezes que magicava nos factos e nos actos, acendeu-se uma luz no meu mirrado cérebro. Afinal a culpa não se devia exclusivamente à crise, mas nela também tinham quota-parte as novas regras de ortografia, com as quais não me consigo identificar e às quais também não me consigo adaptar.


“Coisas de velho”, diz-me o meu dilecto herdeiro, rapaz que desde tenra idade está habituado a resolver tudo com o click de um rato misturado com um toque no “enter” do teclado. Não me conformo e respondo que o francês falado e escrito nos diversos países francófonos não é igual em todos eles, o mesmo se passando relativamente ao inglês. Continuando tanto o francês falado e escrito em França e o Inglês falado e escrito em Inglaterra a constituírem uma referência para os outros países, sem que tenham perdido a sua identidade, o seu papel fundamental de referencial e de baliza delimitadora.


Apesar de poder ser apelidado de bota-de-elástico, retrógrado, paternalista e mesmo neo-colonialista linguístico, não me conformo com esta situação, isto não obstante reconhecer que a língua não é algo de estático, imóvel, e a prova disso é a evolução que a língua portuguesa sofreu ao longo dos séculos. Só que nesse caso estamos perante uma evolução sedimentada paulatina e não de uma alteração brusca que mistura um elenco variado de técnicas de gestão, marketing, sociologia e psicologia para que haja uma aceitação generalizada, neste país de novas oportunidades, sem que se meçam as consequências. Técnica que tem constituído o paradigma da actuação dos nossos “mandantes”, nos mais variados domínios da vida pública.


Depois desta breve reflexão, certamente que estarão ansiosos para saber como contornei a minha inibição inspiracional. Não posso dizer, pois o segredo é a alma do negócio. Isto porque sou um humilde e apagado funcionário público, e por causa dessa horrível condição tenho sido nos últimos tempos brindado com uma série de cortes directos e indirectos no meu já de si magro vencimento (se comparado com os praticados na Europa, onde os preços são iguais). Daí que me tenha visto na contingência de abrir ao público uma agência de consultadoria, onde se ensinam técnicas para contornar a crise e vencer a inibição ortográfica para “mulas empancadeiras”, mercê do “savoir faire” que adquiri na minha penosa travessia do deserto.


Mais uma vez o desvio foi o motor do progresso, não só do meu e dos clientes que afluem aos magotes, mas também de uns quantos gestores, psicólogos, advogados e especialistas em literatura que deixaram de engrossar as infinitas filas dos centros de emprego.

O sucesso das minhas agências é de tal ordem que segundo dados recentes, estas, conjuntamente com as de compra de ouro usado, serão as únicas responsáveis pela descida milimétrica que a taxa de desemprego apresenta de quando em vez, daí que tenha sido convidado para receber o prémio “insista, persista e assim você conquista”, recentemente instituído pelo Ministério da Economia.

© Vladimir da Lapa

17 de Abril de 2010

Agilização de procedimentos

De repente constatou-se que somos um país de corruptos e de cunhas, ou numa linguagem mais eufemística de “agilizadores de procedimentos”. Tal constatação só pode ter na sua génese a “Teoria do Nada”, segundo a qual, na perspectiva do brilhante pensador que a expôs, nada existe enquanto não é exteriorizado.

Contudo, todos sabemos, ou pelo menos temos uma vaga ideia que tanto a corrupção como a cunha são algo intrínseco à sociedade lusitana, basta para o efeito ir recuando no tempo folheando jornais, diários da república e escutando histórias pessoais.

Mas ao que parece o instituto da “agilização de procedimentos” é algo que actualmente deve ser colocado numa central de tratamento de resíduos, ou nos casos em que seja impossível a sua reciclagem, então o caminho não poderá ser outro senão a incineração. Isto porque agora a visibilidade e a inserção do país é completamente distinta da época em que vivíamos orgulhosamente sós, contactando, apenas, com o resto do mundo através de barco ou de comboio, quando os Pirenéus defendiam a coutada lusitana da barbárie transpirenaica. Nessa altura tudo se resolvia através de um lauto e opíparo almoço à base de sardinhas, carapaus, entrecosto e febras, no final do qual circulavam de mão em mão uns envelopes de papel pardo; ou então com uns garrafões de vinho, azeite, aguardente, presuntos e outras iguarias entregues com o batimento do pé direito ou esquerdo na porta da residência do “agilizador de procedimentos”, porque as mãos vinham ocupadas com os embrulhos. Com o decurso do tempo, esta “agilização” evoluiu ao ritmo das novas tecnologias, e os envelopes transformaram-se em depósitos bancários numas ilhas que ninguém sabe muito bem onde ficam; as sardinhadas e as “tainadas” transmutaram-se, primeiro em mariscadas e depois em deslocações a sofisticados e originais espaços de restauração de acesso restrito, contornando a natural propensão que a “arraia-miúda” tem para imitar os comportamentos dos seus “ídolos”.

Então se passámos do “nada” para “alguma coisa”, e essa coisa (“agilização de procedimentos”), segundo os critérios do mundo onde estamos inseridos, passou a ser nociva, há que procurar uma solução que a recicle ou erradique. Essa solução, segundo os crânios pensantes que de uma forma excelsa nos orientam e dirigem, só pode ser encontrada em mais um emaranhado legislativo, com a tipificação criminal de mais um infindo conjunto de comportamentos, o que se vem juntar a toda uma vasta balbúrdia legislativa quer de carácter formal, quer substancial, de diversas proveniências que já existe neste domínio.

Como português que sou e devido aos cabelos brancos que ostento na minha rala cabeleira, embora continue a ser optimista até ao momento em que o barqueiro me leve para a “outra margem”, desconfio destes louváveis propósitos. Porque, estes se traduzirão na criação de mais não sei quantas comissões especializadas, tribunais especializados, magistrados especializados, polícias especializados, advogados especializados, prisões especializadas, e no final vemos os “grandes tubarões” a conseguir furar toda esta especialização paga a peso de ouro pelo “pagode”. E, em regra quem cai nas malhas da lei são os incautos, desprevenidos, mas também não menos ambiciosos membros da “arraia-miúda” que apenas queriam arranjar uns trocos para construir uma casa na terra, comprar um Mercedes, proporcionar umas madeixas e umas unhas de gel à sua “mais que tudo”, porque se tais artifícios estéticos ficam bem à mulher do chefe também ficam bem à dele. Mas, mesmo estes se forem alguma vez condenados e remetidos para uma qualquer prisão, são pagos a peso de ouro para se manterem calados, pelo que nem as madeixas, nem as unhas de gel das suas “mais que tudo” saem beliscadas, podendo-as continuar a exibir enquanto tiram bicas no café da esquina, ou digitam códigos de barras na caixa de um hipermercado para ganharem mais uns trocos.

Claro que existem diversas soluções para atenuar o quadro patológico da “agilização de procedimentos”, mas que certamente não passarão, apenas, pela constante densificação do respectivo quadro legislativo, mas antes pelo estabelecimento de mecanismos de controlo e pela efectiva prevenção, os quais serão bem menos onerosos que a “densificação” e a “especialização”, ambas expressas em lençóis e lençóis de leis, decretos - leis, decretos regulamentares, portarias e despachos de nomeações, cujo somatório é incluído nos impostos pagos por alguns, os quais, por isso, ficam cada vez mais propensos a entrar no "ciclo da agilização", porque o fardo a cada dia que passa custa, ainda, mais a suportar.

© Vladimir da Lapa

4 de Outubro de 2009

Jangada lusitana

Durante algum tempo, andei meio toldado, ou mesmo paralisado sem qualquer capacidade de raciocínio, com uma constante tentação para “tirar bilhete” (só de ida) para um qualquer mosteiro do Tibete, ou para um outro destino similar, onde não tivesse de ser fustigado diariamente com os problemas graves da realidade nacional, como seja o brilhantismo do Queirós e dos seus pupilos luso-brasileiros na selecção e o seu ofuscante desempenho alvo de referências elogiosas pelas setes partidas do mundo; o namoro da Luciana Abreu com o Djaló e o grave problema das suas raízes de sangue azul que entroncam nos Braganças; o stress provocado pelo desenrolar do concurso Sexy 20 – Sexy Platina, onde o nosso “premier” Sócrates arrancou um primeiro lugar muito disputado, ao que consta devido aos seus cabelos grisalhos (coisa muito do agrado do público feminino e que o equipara ao George Clooney), conjuntamente com a Fátima Lopes, fazendo um belo par, não sei se a fotografia que juntou estes dois ofuscantes ícones do panorama “jetsetiano” nacional terá sido muito do agrado da colunista e farol-sempre-vigilante da maledicência anti-socrática; o desaparecimento “inesperado” da Manuela Moura Guedes dos ecrãs televisivos e as referências constantes a esta tragédia em toda a imprensa, dando a ideia que a senhora após ter caído em desgraça, foi alvo de auto de fé e conduzida para uma fogueira no Terreiro do Paço, devido a um qualquer acto de bruxaria (suspeito de quase toda a gente respirou de alívio, mas há que manter as aparências….); as eleições, que este ano contaram com a animação cultural dos “Gatos Fedorentos”, os quais tiveram o mérito de injectar uma lufada de ar fresco num período que não costuma ser particularmente alegre, a eles se juntou, antes e depois, o Presidente da República com as suas sábias e doutas intervenções de cariz activo e omissivo, tudo se saldando por mais uma vitória do nosso “premier”, cujos contornos me escuso de comentar.

Como se toda esta onda de desgraça não bastasse o meu “papa reformas”, onde habitualmente me pavoneio ao fim de semana pelas “routes” do nosso querido Portugal, teve um abafo, ficou silencioso e imóvel quando subia no Reguengo do Fetal em direcção à Batalha para ir comer uns “Pingos de Tocha” ao Oliveira, deixando-me apeado e desesperadamente a salivar pelo doce pitéu. Deve ser da influência da falha sísmica que existe naquele local e das ondas electromagnéticas que tal fenómeno consegue transmitir para o exterior, afectando os sistemas eléctricos, electrónicos e mecânicos, pelo menos foi a explicação aventada pelo rebocador, enquanto carregava o meu “bólide”, com ar doutoral de elevada sapiência de que quem anda a fazer o 12º ano nas “Novas Oportunidades” e com ambições de se inscrever num curso universitário, porque de acordo com as suas palavras “um canudo e o respectivo cachucho ficam sempre bem e dão um certo ar de gente importante”.

E, enquanto fazíamos as curvas em direcção à terra dos três pastorinhos, lá continuou com a sua dissertação, afirmando que dentro em breve se inscreveria num partido político. Assim, quando tiver o canudo, já o caminho para integrar uma lista autárquica e posteriormente uma para deputado à Assembleia da República estará desbravado. Pois, quer fazer o caminho inverso daquele deputado da UDP nos tempos idos do PREC chegou a sentar-se nas cadeiras almofadadas da Assembleia, mas que actualmente ganha o sustento para ele e para a sua prole como rebocador em D. Maria, terra que já foi formosa e famosa pelas suas águas que abasteciam Lisboa, mas que agora não passa de um esconso subúrbio acinzentado da grande metrópole, repleto de casas clandestinas chapeadas a azulejo e outras pérolas da arquitectura portuguesa das últimas décadas, onde a única coisa que me ali atraía era as sandes de metro e meio de altura, e os lautos e opíparos almoços do meu amigo Norberto que entretanto transitou para o além, ficando o estabelecimento fechado para obras.

Mas aquilo que mais me tem atraído a atenção desde que abandonei o “período vegetativo”, foi mais uma guerra do “alecrim e manjerona” entre os bombeiros e a GNR que durante o período em que o Dr. António Costa passou pelo Ministério da Administração Interna, passou a dispor de uma valência de protecção de socorro. Desde aí que o verniz foi estalando no relacionamento entre bombeiros e GNR, com os primeiros sempre a dizer mal dos segundos, mas a copiar tudo aquilo que eles fazem, para depois aparecerem com ares doutorais de inventores da roda quando ela já foi inventada há milhares de anos. A coisa terá mesmo azedado na sequência de um contra-fogo lançado por uma corporação de bombeiros voluntários, onde, ao que consta terá ardido um veículo da GNR. No meio da troca de "galhardetes" foi exigido pelos bombeiros que se clarifique de uma vez por todas o papel desta força de segurança no âmbito do combate aos incêndios, pois não gostaram de ter sido identificados devido aos contornos pouco claros da atitude que tomaram. Como se tudo isto não bastasse, o Dr. António Costa, actual presidente da Câmara Municipal de Lisboa, a quem o Dr. Cavaco Silva, incumbiu de presidir às cerimónias do 5 de Outubro (para quem não saiba ou já se tenha esquecido: dia de implantação da República), após uma intensa troca de correspondência, afirma-se que irá prescindir da presença da GNR nas cerimónias, alvitrando-se a hipótese da Guarda ser substituída pelos sapadores bombeiros.

Realmente este país é um mundo muito pequenino, onde tudo se rege por interesses pessoais, na maior parte dos casos mesquinhos e de ocasião; por isso cada vez fico mais apreensivo com a jangada lusitana, sem saber onde ela vai aportar, ou se de alguma vez deixa a sua eterna deriva e passa a ter um rumo, cada vez mais compreendo Alexandre Herculano e a sua retirada estratégica para Santarém, para cuidar das suas oliveiras.

© Vladimir da Lapa

16 de Fevereiro de 2009

O Segredo


Devido a um conjunto de investimentos de risco que fiz num passado recente, quando, à semelhança de uma fatia significativa da população portuguesa, pensava que tinha visto uma luz dourada ao fundo do túnel e que por isso num futuro próximo ascenderia ao patamar do desafogo financeiro, tive de repensar a minha contabilidade pessoal, formatando as colunas do “deve” e do “haver”, adaptando-as às exigências actuais.

Nessa linha de pensamento e de acção, recomecei a viajar de metro, coisa de que me tinha desabituado, trocando o conforto do carro, das trocas de sms, dos telefonemas, do som da RFM, da TSF, da RCP, pelo desconforto dos solavancos das carruagens metálicas, quase sempre de pé. Ouvindo os romenos a tocar concertina, ou os pedintes (cegos, pernetas, manetas…) a suplicarem uma “moedinha”. Vendo um conjunto de caras cinzentas e tristonhas para quem parece que o mundo vai acabar quando saírem na próxima estação. Sendo, ainda, brindado por um conjunto de olores diversificados de cuja mistura refinada, certamente, resultaria um perfume de sucesso de cariz afrodisíaco, tendo em conta certas movimentações mais ou menos ousadas que ocorrem nas “horas de ponta”.

Numa das estações onde apanho este meio de transporte, por sinal muito mal cuidada, quando me dirigia para a máquina dos bilhetes para carregar o meu “Lisboa Viva”, verifiquei que esta não aceitava notas de 20 €. Como só tinha uma nota de 20 €, para carregar o cartão e para muitas outras coisas, dirigi-me ao guichet onde se encontrava um funcionário com cara de macambúzio. Este, depois de instado, lá me respondeu com um “diga lá o que quer” que me fez lembrar o meu Sargento Julião, há uns anos atrás, ordenando enrolamentos e cambalhotas por cima de tojos, silvas e poças de água.

Quando lhe disse que pretendia trocar a nota, porque a máquina não aceitava notas de 20 €, começou a virar de “aberto” para “encerrado” um placard, bastante sebento que estava pendurado na vitrine, vociferando que naquela estação “não havia venda”, pelo que não me podia desenrascar, "aconselhando-me" a utilizar o cartão Multibanco. Até parece que somos obrigados a usar este tipo de cartões para sobreviver na selva urbana. Como nunca trago nenhum, para não cair em tentações consumistas, porque os juros subsequentes não são para brincadeiras e só me iriam debilitar ainda mais, lançando-me efectivamente na sarjeta, depois de perguntar o nome daquele distinto funcionário que nesse momento se rodeou de dois seguranças com aspecto de pertencerem a um grupo de forcados, dirigi-me a uma papelaria ali perto para ver se conseguia retalhar aquela minha pequena fortuna.

Para não levar com mais respostas azedas, porque azedo já eu ando quanto baste, fiz uma aposta no euromilhões, desbaratando parte do pecúlio que devia de investir em sopa de couve lombarda e feijão para me aquecer o estômago e enganar a fome, pensando para comigo: “é só prejuízo”. Mas mesmo que quisesse voltar a pé para casa não conseguia, porque tinha uma bolha no pé direito que parecia uma bola de râguebi, além de não ser aconselhável calcorrear as ruas alfacinhas sob pena de dar cabo dos sapatos e das articulações no pavimento danificado pela invernia e que muito provavelmente só será reparado em vésperas de eleições.

Voltei à estação, o exemplar funcionário lá continuava a trocar impressões com os dois seguranças, tendo os três esboçado um sorriso trocista quando me viram passar, ainda me apeteceu virar-me para eles, esticar o dedo médio da mão direita, recolher os restantes e mandá-los espreitar para dentro de uma caneca das Caldas. Mas como vivemos numa sociedade orwelliana, onde em cada canto existe uma câmara de videovigilância, pensei que poderia ir malhar com os ossos a Tribunal e contive-me, pois nunca se sabe o que vai na cabeça dos juízes e até onde a douta sapiência desta casta superior nos pode conduzir.

Já em casa, sentado no sofá, quando efectuava uma reflexão epistemológica em torno de toda esta situação, constatei que a Marisa Cruz, debitava os números do sorteio do Euromilhões, mantendo o seu maravilhoso sorriso (ao menos algo que nos alegre), não obstante a desfeita que o enteado lhe fez a ela e ao seu mais que tudo, não os convidando para o casamento.

Milagre dos milagres, tinha sido contemplado por um prémio, embora daqueles da cauda, mas sempre era um prémio, depois de feitas as contas, no meio de todo este enredo, ainda acabei por ficar com algum lucro, no mais profundo do meu ser agradeci ao simpático do funcionário por não ter troco para a minha nota, só tenho pena que o remanescente não dê para comprar e manter um burro igual àquele em que o actual presidente da Câmara Municipal de Lisboa subiu a Calçada de Carriche há uns anos atrás, provando que se chegava mais depressa de burro do que de carro à cidade.

Tenho esperança que numa próxima ocasião, de contornos idênticos, porque isto foi um sinal divino a tentar encaminhar-me para o trilho do sucesso, ganhe ao menos dinheiro suficiente para o burro e para o seu sustento, para que na deslocação casa trabalho e vice-versa, me livre dos inconvenientes do carro e do metro, porque assim ficarei conhecido, podendo acabar em apresentador televisivo, membro de uma loja maçónica, deputado, ministro, presidente de um clube de futebol ou de uma qualquer edilidade e aí de uma vez por todas, alcançar os píncaros da fama e da glória.


© Vladimir da Lapa

2 de Fevereiro de 2009

O Inverno

O Inverno.

O que simboliza para si esta estação do ano?


© Vladimir da Lapa

5 de Janeiro de 2009

A crise

Se durante o Verão, ao contrário do que é habitual, as palavras que mais ouvimos foram roubo, assalto, furto, carjacking e outras parecidas em vez de incêndio, incendiários, bombeiros, áreas ardidas e mais algumas similares, às quais nos fomos habituando desde que o desordenamento florestal do país atingiu o seu máximo esplendor. Com a chegada do Outono começaram a rufar os tambores da crise, cujo som ecoa cada vez com maior intensidade, ameaçando rebentar com os tímpanos a uma fatia significativa da população portuguesa.

Esta crise qual ciclone global varreu o planeta de lés a lés, cumprindo assim a premonição efectuada por Pedro Ferreira Esteves através de um artigo publicado no Diário de Notícias de 30/01/2008, intitulado sugestivamente de “nenhum país escapará à crise.”

Os sinais são evidentes a nível internacional, atente-se no caso da Islândia e do empréstimo que teve de contrair perante a Rússia, dos chineses arrastados para miragem dourada dos pólos industriais e que agora regressam às origens de bagagem às costas, conforme demonstra uma fotografia publicada no semanário Expresso deste fim-de-semana, a qual me traz à memória os tempos em que o Sud Express galgava os Pirenéus carregado de mão-de-obra lusitana a caminho da Europa. Mas os indícios também são bem claros a nível interno com o constante apertar do cinto dos portugueses, os quais nalguns casos já não sabem o que fazer para ultrapassar o labirinto das despesas mensais.

A este propósito, há pouco tempo atrás encontrei o “Bragança”, um “rapaz” um pouco mais velho que eu, mas a quem a fraca propensão para as letras e para os números, mas uma grande apetência para lidar com tudo o que fosse ferramentas, levou a que se tornasse lenhador, trabalhando do nascer ao pôr-do-sol, durante todo o ano com uma moto serra. É uma dessas figuras típicas que encontramos por esse Portugal fora montadas numa Famel Zündapp, com os dentes que lhe restam a segurar uma capa de oleado para fazer frente aos elementos atmosféricos e ornamentando a cabeça com um daqueles capacetes tipo penico, muito vulgares nos motociclistas da década de 60.

O “Bragança” vive, sozinho, num espaço semi-abarracado, a meio caminho entre o campo e a serra, atulhado de tudo quanto a imaginação pode alcançar em termos de alfaias e de máquinas para trabalhar no campo e na floresta. Como a sua “mansão” não dispõe de casa de banho, quando o encontrei acabava de lavar as mãos na levada que corre suavemente em direcção ao vale, dando indícios de vir de uma retrete privativa situado atrás de um silvado, pelo menos assim parecia, devido ao cheiro que a brisa da tarde dali trazia.

Começou logo com um chorrilho de lamentações, pois tinha sido assaltado recentemente, dado que no Portugal profundo também há assaltos, só que no interior não há audiências televisivas dignas de registo, por isso o que por lá se passa não interessa. Mas o seu infortúnio não acabou por aqui, o patrão, ter-se-á metido em “camisas-de-onze-varas” e faltou-lhe o fôlego (carros novos, moradia, casa na praia, férias no estrangeiro…..), por isso não lhe pagava há três meses. Como se isso não chegasse ainda está a braços com um processo por ter cortado uns pinheiros, agindo segundo indicações da entidade patronal, cujo corte nunca tinha sido ajustado.

Estava preocupado porque assim não tem gasolina para a motorizada; não pode aliviar o stress nas meninas da casa de alterne; não tem dinheiro para a mercearia, nem se pode emborrachar ao domingo à tarde enquanto atira, a murro, as cartas da sueca para cima da mesa na taberna do Alfredo, porque o livro do fiado também tem uma página que se chama “última”.

Mas depois vemos que neste país em crise, repleto de moralidade e bons costumes, que o gabinete de Sócrates terá reforçado a adega com 7000 euros em garrafas de vinho, que o Ministério da Justiça terá comprado carpetes no valor de 22000 euros, que a Câmara de Gondomar terá gasto 67742 euros para alimentar e 33250 euros para transportar os gondomarenses que aderiram a um passeio a Braga (as eleições autárquicas já se vêem ao fundo do canudo), e que os ex-administradores da Gebalis tinham uma especial apetência para entrar em campeonatos de milhas aéreas e concursos de gastronomia.

Apesar de toda a pomada jibóia que nos tentam vender diariamente; afirmando que 2009 vai ser muito bom para os portugueses, dando míseras migalhas a umas minorias que se contentam com isso e que se calhar até nem se julgam merecedoras de tanto; continuando a agitar a bandeira das grandes obras públicas; assumindo a paternidade da redução das taxas de juros ditadas pelo BCE; tentando-se, assim, criar um clima de eterna gratidão, traduzido em votos na pafernália eleitoral que se avizinha; a crise continuará a perturbar os já perturbados, mas também aqueles que se julgam imunes ou alheios a esta pandemia, só tenho pena que ela se faça sentir com maior intensidade sobre os “Braganças” deste mundo, afinal aqueles que desde tempos imemoriais têm carregado com os podres da humanidade às costas.

Os únicos que ficam a lucrar com a situação são os psicólogos, psiquiatras e laboratórios que vão escoar os anti-depressivos e afins encalhados, bem como as empresas de gestão e consolidação de créditos que muito prestimosas vão aparecer no caminho dos incautos...

© Vladimir da Lapa

19 de Abril de 2008

Horda de bárbaros

De tudo aquilo que ultimamente tem feito correr verdadeiros rios de tinta, o que mais me tem chamado a atenção é o pânico em relação à segurança. Fiquei um pouco mais descansado quando vi o Ministro da Administração Interna, em pleno voo, a congeminar e traçar os planos para debelar o clima de insegurança que se foi instalando, com uma pose semelhante ao Marquês de Pombal na reacção ao terramoto de 1755.

Como há já algum tempo que não sentia o pulso à noite lisboeta (a idade não perdoa), decidi, com alguns amigos, calcorrear a cidade a coberto do escuro. Depois de jantarmos em S. Bento, fomos tomar café ao Chiado, passámos pelo miradouro de S. Pedro de Alcântara, seguimos para o Pavilhão Chinês, efectuando mais tarde o percurso inverso.

De permeio tropeçámos em miúdos, com doze ou treze anos no máximo, à porta dos locais “in” com o espírito e o corpo toldados pela cerveja e pelos charros; demos de caras com uma chusma de toxicodependentes que no citado miradouro aplacavam o seu vício; além de termos encalhado com dois “gorilas” que abanavam desalmadamente um desgraçado (certamente por causa de alguns trocos), os quais deram asas aos sapatos quando sentiram que caminhávamos na sua direcção.

Na ida encontrámos apenas um polícia de trânsito, o qual, provavelmente em regime de gratificado, tentava, conjuntamente com um arrumador, regularizar o estacionamento junto a uma loja de uma cadeia internacional de moda que acabava de ser inaugurada. À vinda deparámo-nos com quatro polícias municipais discutindo, dentro da viatura de serviço, sobre os próximos capítulos da novela futebolística, totalmente alheados daquilo que se passava à sua volta.


Dado que não percebo nada da “arte de bem montar segurança em toda e qualquer urbe”, dei o benefício da dúvida, pensando que tudo isto fizesse parte de alguma experiência no âmbito de um “contrato local de segurança”, com uma parceria público - privada (no caso do polícia de trânsito e do arrumador) e com a autarquia no que tange aos polícias municipais, cujos resultados só se fariam sentir a médio e a longo prazo.

Mas essas minhas esperanças esboroaram-se rapidamente quando nessa mesma semana, recebi uma chamada dando-me conta que um grande amigo meu, depois de ter sido brindado com um valente atesto de porrada por um grupo de encapuzados, tinha ficado sem o seu carro topo de gama, bem como sem outros haveres pessoais.

Parece que fomos invadidos por uma horda de bárbaros que à sua passagem tudo pilham, não hesitando em recorrer à violência se tal se mostrar necessário. Era o que dizia a D. Emília, à hora do café e do pastel de nata, pessoa muito crente e frequentadora da Igreja, a qual um dia destes quando ia para o recesso do lar esbarrou com um tiroteio entre a polícia e um bando de marginais, fazendo ali o seu baptismo de fogo.
Foi-se logo inscrever na excursão anual à Terra Santa, projecto adiado há vários anos, porque se tinha conseguido sobreviver àquele embate, também se desenrascaria facilmente se fosse apanhada no meio de algum turbilhão israel - palestiniano.

© Vladimir da Lapa

30 de Março de 2008

“Ores”, “eiros” e “istas”

Já nem me lembro há quantos anos, numa cinzenta tarde de Inverno, quando o frio entrava por todas as frinchas da sala de aulas pré-fabricada e se entranhava até aos ossos, perante a constatação da pouca apetência da classe para a resolução das inequações, um professor de Matemática, rapaz nascido e criado em ambiente citadino, pouco habituado à rudeza do campo e a tudo o que isso implica, do alto da sua infinita sapiência, proferiu a seguinte a afirmação: “nem todos podem ser engenheiros, professores, médicos ou advogados, também há necessidade de agricultores, canalizadores, electricistas, pedreiros, padeiros e carpinteiros”.

A frase foi tão bem interiorizada, e causou tal efeito que daquela plateia apenas duas pessoas conseguiram ascender ao ensino universitário e concluir um curso superior. Todos os outros, mais cedo ou mais tarde, acabaram por desembocar na “escola da vida”, enveredando por diversas profissões, quase todas elas ligadas à construção civil. Engrossando a já de extensa lista de “patos bravos” que cimentaram, alcatroaram e verticalizaram Lisboa, e que depois se lançaram ao ataque nos arredores da capital, estendendo os seus tentáculos a localidades tão diversificadas como Mafra, Sobral de Monte Agraço, Malveira, Montijo ou Alcochete.

Devido à influência daquela frase mágica, em vez de ocupar a minha tarde de domingo a estudar a origem geográfica das diversas notícias publicadas na imprensa nacional, ou o seu tipo, decidi percorrer os respectivos suplementos e analisar os empregos que aí são oferecidos. Constatei que a prevalência vai para o comércio, construção civil, cabeleireiros, empregados domésticos, escritórios, oficinas, acompanhantes, imobiliário. Aparecendo alguma oferta qualificada no suplemento do Expresso, exigindo-se habilitações do nível licenciatura, mas também já bastante ponteado com opções onde não há tal imposição.

Tal oferta tem uma amplitude que em traços gerais, corresponde à que consta da afirmação daquele brilhante professor de Matemática, à conta do qual e de muitos outros como ele, espalhados nesses tempos conturbados pelo país afora, ainda hoje se paga a factura do analfabetismo matemático e da aversão à disciplina, com consequências que se têm vindo a revelar bastante complicadas tanto no plano individual como colectivo; contribuindo para o surgimento e agravamento do síndroma do “eduquês”.

Por isso temos que inovar, apostar em novas oportunidades profissionais, trilhar novos caminhos, abandonar a antiga compartimentação, criando algo entre as duas tradicionais classes de “ores”, “eiros” e “istas”. Exemplos de sucesso não faltam, veja-se o caso dos professores-advinhadores, dos guarda-costas, das cobranças difíceis, e dos detectives privados. Esta última área está a ser alvo de uma procura cada vez mais acentuada, havendo um dos profissionais do sector que se assume como especialista em questões de “cornos” ou de “chavelaria”, recorrendo para o efeito aos meios tecnológicos mais avançados. O sector é de tal forma apetecível que alguns profissionais trocam o sector público pelo privado, fazendo no “intermezzo” alguma promoção nos canais televisivos como comentadores de questões relacionados com a segurança. Mas há outros exemplos no horizonte, e nalguns países começam a surgir cursos superiores de música rock, ioga, design de jogos, devidamente acompanhados de pós graduações em sexo tântrico, japonês, reeducação respiratória e noutras disciplinas congéneres.

Tendo em linha de conta o cenário actual, com a betonagem, o asfaltamento e a verticalização em crise, embora com algumas luzes ao fundo do túnel, dado que se aproxima a época eleitoral e fica sempre bem correr o país a cortar fitas; crise que é transversal (de uma ou de outra forma) a diversos espaços tradicionais de empregabilidade. Na minha modesta opinião, estará aqui uma hipótese de baixar o nível desemprego, trazendo-o para limites aceitáveis, além de que se daria uma lufada de ar fresco no panorama universitário nacional, chamando para o seu seio aquilo que até agora têm sido consideradas como franjas marginais do conhecimento.

© Vladimir da Lapa

17 de Março de 2008

A Primavera

A Primavera aproxima-se a passos largos.

Que significado tem para si a esta estação do ano?

© Vladimir da Lapa

2 de Março de 2008

Este não é um país para velhos

Há uns anos atrás, tive uma colega de liceu, cuja família no dia 26 de Abril de 1974 apanhou o primeiro voo disponível para o Brasil, deixando-a aos cuidados dos avós.
Por isso, ia com alguma frequência a “Terras de Vera Cruz” visitar os seus progenitores. Quando o fazia, inevitavelmente, dirigia-se, previamente, ao mercado semanal, para se abastecer de roupa, calçado, e outros adereços. O que me deixava algo perplexo, devido aos sinais de ostentação que evidenciava no dia-a-dia, traduzidos desde logo no facto de ser transportada até às portas do liceu pelo motorista da família.

Até que um dia, depois de alguma insistência da minha parte, lá me explicou o porquê do recurso à “boutique alcofa” quando se aproximava mais um voo transcontinental. Fiquei a saber que no nosso “país irmão”, em menos de um fósforo se podia ficar sem uma qualquer peça de roupa, calçado, adereços, ou quaisquer outros objectos pessoais, bastando para o efeito que estivessem reunidos três requisitos cumulativos: tratarem-se de artigos de marca, circular com eles na via pública, poderem ser facilmente transaccionáveis ou terem alguma utilidade para quem deles se apropriasse.

Adorei a sistematização da minha colega, qualidade que ainda hoje mantém e que lhe tem sido de extrema utilidade na actividade que exerce, ao mesmo tempo pensei para comigo mesmo que um vandalismo de tal ordem seria impossível e impensável nesta “terra de brandos costumes”.

O tempo encarregou-se de me fazer mudar de opinião, a mim e a muitos outros portugueses. Exemplos não faltam, são os mais novos que junto das escolas, ficam sem os telemóveis, os ténis de marca, os bonés, as mochilas, o dinheiro. Carros que são roubados sob a ameaça da prática de violência, muitas vezes concretizada e nalguns casos levada ao extremo, como ainda recentemente aconteceu em Sacavém e Oeiras, onde os proprietários dos veículos foram barbaramente baleados. Estes carros, posteriormente, são utilizados na prática de outros crimes igualmente violentos em que não se olha a meios para atingir os fins. Se são encontrados estão prontos a irem para uma sucateira, mas por regra são encaminhados para um qualquer país do terceiro mundo, onde chegam a circular com a chapa de matrícula local, colada em cima da original.

Enquanto isso, o governo refugia-se nas estatísticas, na posição ocupada por Portugal no ranking dos países mais seguros do mundo, esperando que a situação se resolva por si. Afirmando que a solução milagrosa (tipo poção do Astérix) estará contida no Relatório de Segurança Interna de 2007, dado que este documento, a ser publicado brevemente, além das habituais estatísticas, apontará caminhos.

Esperemos que efectivamente aponte caminhos, porque os que actualmente são percorridos pelas forças e serviços de segurança são bastante tortuosos. É a confusão na PJ a propósito da publicação ou não da respectiva lei orgânica, a situação da directoria do Porto, os inspectores acusados de agressões à mãe da Joana. Mas nas duas forças de segurança o horizonte também está matizado de cinzento, pois estão imersas na incerteza da regulamentação das leis orgânicas, lançando mega operações, das quais só muito raramente resultam detenções de autores de furtos e roubos, mas em contrapartida são levantados muitos autos de contra ordenação por infracções de trânsito e detidas inúmeras pessoas por condução sob o efeito do álcool.

Contudo, como a barafunda é total há uma infinidade de contra ordenações em risco de prescrever. Para evitar tal rombo nos cofres do Estado, irá ser celebrado um protocolo com a Ordem dos Advogados, para que os advogados e os advogados estagiários passem a instruir este tipo de processos contra ordenacionais. Entretanto, muitos funcionários (juristas e administrativos) que estavam na antiga DGV e que trabalhavam nesta área, passaram a integrar a mobilidade especial da função pública, não tendo sido aproveitados para integrar os quadros da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária.

Realmente este país, não é mesmo um país para velhos, não no sentido de pessoas idosas, porque estas possuam um capital de experiência adquirido ao longo da vida que é de extrema importância, mas de velhos métodos. Os velhos métodos utilizados para os “brandos costumes” não são eficazes na actualidade, e muito menos o serão no futuro, pelo que há que alterá-los sob pena de cairmos numa espiral de violência incontrolável que nos arraste para uma situação como a dos Estados Unidos, onde 1% da população adulta está presa, ou como a do Brasil, com territórios controlados pelo crime organizado, o qual no interior das prisões, a pedido de particulares e mediante pagamento, aplicam a justiça de acordo com os seus padrões.

© Vladimir da Lapa

28 de Janeiro de 2008

“All Lisbon”

Este texto foi escrito no dia em que uma pessoa muito especial adormeceu para sempre no mar da paz eterna, depois de anos a lutar contra um inimigo infinitamente superior. Dedico-lhe as suas linhas.

Recentemente, devido a um conjunto multifacetado de vicissitudes, tenho percorrido algumas zonas de Lisboa e arredores, as quais, habitualmente, não são visitadas nem pelos turistas nacionais, nem pelos estrangeiros. O que se deve ao facto de não constarem dos roteiros turísticos, mas também porque o seu nome é de tal forma conotado com aspectos negativos, amplamente divulgados por alguma imprensa especialmente vocacionada para o efeito, que a hipótese de uma visita é liminarmente afastada.

Mas há, por esses lados, motivos com interesse de sobra para serem visitados. Desde logo, mercearias e tascas equipadas a rigor nos finais do Séc. XIX e que até hoje não sofreram qualquer tipo de alteração, mantendo assim a sua traça original, constituindo um património arquitectónico de valor incalculável. Sendo de referir que a sua preservação só se torna possível porque o organismo encarregue da fiscalização de tais actividades não ousa penetrar nestes territórios, isto não obstante o tipo de equipamentos que utilizam e o treino militar ou paramilitar que têm.

Igualmente centenárias são algumas fábricas, bem como quintas e vivendas ornadas com roseiras, limoeiros e nespereiras, entretanto abandonadas, as quais desempenham um papel social muito importante, dado que têm espaços que são utilizados em regime de rotatividade para aliviar o stress masculino e encher a carteira de algumas senhoras que se dedicam à profissão mais velha do mundo; outros desses espaços servem para o tráfico e consumo de uns produtos de cor acastanhada ou branca, provenientes de África, da Ásia ou da América Latina; finalmente servem ainda de estabelecimento de hotelaria para a rapaziada que devido a diversas vicissitudes da vida não tem eira e nem beira e a partir de determinada hora sente uma atracção irresistível pelo abraço de Morfeu.

A todo este património, de provecta idade, junta-se uma malha urbanística, moderna, consubstanciada nuns magníficos caixotes de cimento, cuja traça só pode ter saído das nossas melhores escolas de arquitectura. Estes caixotes, caracterizam-se pela sua coloração desmaiada; pelos traços da humidade que acompanham o formato dos tijolos das paredes externas, provocando a ilusão óptica de que estes últimos estão à face do reboco; e pelos “grafittes” que os ornamentam. Numa fase mais avançada, as persianas parecem a boina de um adepto do Benfica numa daquelas tardes em que as coisas não correram muito bem ali para os lados da Luz; numa manifestação de boas vindas, da simpatia e hospitalidade, tipicamente portuguesas, a porta da entrada, de muitos dos edifícios está aberta, de par em par; e alguns vidros das janelas, para permitir uma ventilação apropriada à canícula lusitana, apresentam uns orifícios de tamanho médio e com aspecto irregular.

Mas o ponto alto, são as hortas que ladeiam todo este vasto e multissecular património arquitectónico. Seguindo a lição do fundador do PPM que entretanto se transferiu para o MPT com medo que a sede do partido lhe desabasse em cima da cabeça, como numa fase posterior veio a acontecer, existem milhares de hortas urbanas. A maior parte delas situam-se junto às vias que rasgam a cidade de lés a lés, apresentando aí a hortaliça uma coloração peculiar, talvez devido ao “gasolinamento” diário a que são sujeitas, mas também por causa da água utilizada na rega, a qual rega e aduba, porque é bombeada de rios e riachos que na corrente transportam de tudo um pouco, resultando dali um “mix” com uma potência infernal, o qual só é batido aos pontos pelas águas da barragem das Três Gargantas.

Além do seu aspecto viçoso, estas hortas ostentam uma ornamentação muito peculiar, constituída por garrafões de água e outros recipientes provenientes da detergentoteca caseira, os quais depois de esvaziados, são hasteados na extremidade de uma vara através do gargalo, tentando assim afastar a passarada. Só que a passarada da cidade não se deixa enganar com facilidade e sempre que pode vai dando umas bicadas na hortaliça e enchendo o papo. Contudo, estes pássaros, passarinhos e passarões, quando menos espera são apanhados nas ratoeiras meticulosamente espalhadas no terreno, e servidos, posteriormente, nos estabelecimentos da especialidade.
Por seu turno, a hortaliça é vendida, através de um sistema similar ao “hawala”, de forma dissimulada de porta em porta, ou numa qualquer esquina da cidade, sendo a sua procura muito elevada. Afinal de contas, estamos na presença de produtos resultantes de agricultura biológica, não sujeitos a tratamentos com pesticidas, adubos químicos ou afins.

Como facilmente se depreende as potencialidades turísticas destas zonas são infinitas, e susceptíveis de fazer as delícias dos adeptos da descoberta, da novidade, da surpresa, da emoção, da fotografia e do vídeo, demonstrando que há Lisboa para além do fado Bairro Alto, dos pastéis e da Torre de Belém, dos Jerónimos, da Baixa e do Chiado, contribuindo para divulgar Portugal e a sua capital nas diversas vertentes que a compõem ao mundo inteiro, tentando alcançar pontos do globo onde a imagem de uma famosa cigarrilha, saboreada na euforia da passagem de ano, não conseguiu penetrar.

Quanto à susceptibilidade dos turistas serem vítimas de algum crime, esta é inferior àquela que existe numa favela do Rio de Janeiro, ou num qualquer outro destino idêntico, pelo menos é o que consta das estatísticas.
Mas, mesmo assim, se algum visitante ficar sem os seus haveres pessoais através da acção de um amigo do alheio mais ousado, bastará uma deslocação ao departamento policial especialmente vocacionado para o efeito, onde será preenchida uma série infindável de formulários, cuja dimensão é inversamente proporcional à possibilidade de recuperar os artigos surripiados.
Caso alguém seja apanhado no meio de um inesperado tiroteio, isso também não constitui um problema grave, porque em Lisboa, além do INEM, existem diversas corporações de bombeiros, daí que se presuma que o socorro e o atendimento pré-hospitalar sejam relativamente rápidos, e que da troca de comunicações não resulte nenhum episódio hilariante, com todos os requisitos para servir de base a uma boa revista à portuguesa, como aquele que visionámos em directo ainda recentemente.

Tendo em conta todas estas potencialidades, só falta iniciar a campanha de promoção turística, a qual terá de ser efectuada dentro e fora de portas, aliás à semelhança daquilo que aconteceu noutras zonas do país. Para o efeito proponho que o slogan da mesma seja: “All Lisbon”.

© Vladimir da Lapa

5 de Janeiro de 2008

Lisboa - Dakar

Foi há cerca de 200 anos (17 de Novembro de 1807) que as primeiras hostes do exército francês entraram em Portugal pela fronteira de Segura na Beira Baixa. Iniciando-se assim aquilo que ficou conhecido pelas Invasões Napoleónicas, das quais se guardam terríveis memórias, como é referido por Vasco Pulido Valente na sua recente obra: “Ir Pró Maneta”.

Também, a edição deste ano do Rali Lisboa – Dakar foi “pró maneta”, devido a uma ameaça terrorista que pairava sobre a Mauritânia, país onde na véspera de Natal foram mortos quatro turistas de nacionalidade francesa. Por tal motivo, o governo francês desaconselhou os seus cidadãos a participar na prova, a qual envolvia um total de 2500 pessoas provenientes de 50 países.

O que constituiu uma vitória para o terrorismo que assim conseguiu transmitir a sua mensagem, imobilizando nos pântanos do medo uma prova desportiva desta dimensão. Seguindo esta lógica, um dia destes uma organização terrorista qualquer lança uma ameaça de ataque em Lisboa se alguém tiver a ousadia de sair de casa para ir trabalhar ou fazer o quer que seja. Mercê de tal ameaça, Portugal inteiro fica no recesso do lar, comodamente instalado no sofá assistindo em directo ao desenrolar dos acontecimentos através da rádio, da televisão e da internet. Estes meios de comunicação social, certamente, não perderão a oportunidade para aumentar o leque de oferta publicitária, porque mesmo que depois de passada a ameaça lhes seja aplicada alguma coima, os lucros conseguidos superarão o montante desembolsado.

À semelhança daquilo que aconteceu com Napoleão, também Sarkozy neste momento tenta relançar a França, país que durante as últimas décadas tem andado pelas ruas da amargura em termos de projecção internacional. Para tal, nada melhor de que interferir com a realização de uma competição desportiva deste nível, a qual neste momento tem a designação de Lisboa – Dakar, mas que noutros tempos já se apelidou de Paris – Dakar.

De certeza absoluta que se a partida fosse em Paris, o governo francês tomaria medidas adequadas para não impedir a realização de um evento desta natureza, devido aos prejuízos que daí advêm, e, acima de tudo, para que a imagem de França não fosse manchada. Embora, como é óbvio, sem que passasse pela Mauritânia para não pôr em causa a segurança da caravana.

Mas como ela partia de Lisboa, o próprio Sarkozy puxou o lustro aos já semi-enferrujados galões imperiais, e inspirado pelo recente sucesso no campo amoroso que tanta tinta tem feito correr por esse mundo fora, além das instruções que deu aos seus cidadãos, terá forçado a empresa pública Total, fornecedora oficial de combustíveis da prova, a sair de cena, não obstante a logística já estar toda montada ao longo do itinerário.

Com esta atitude demonstrou o seu poder, da mesma forma que o seu conterrâneo Loison o fez no séc. XIX, com as suas célebres digressões punitivas em terras lusitanas. Só que a punição desta vez não se traduziu em mortos, feridos, mulheres violadas, casas e igrejas saqueadas e queimadas, colheitas destruídas, mas em avultados prejuízos económicos, para a organização, para os participantes, para as autarquias, para o turismo em geral e para todos os aficionados do desporto automóvel e para Portugal, cujo nome fica para sempre associado ao cancelamento de uma edição desta prova desportiva.

Pode ser que a próxima edição parta de Paris e numa jogada de mestre ao bom estilo da moderna escola francesa de “intelligence économique”, atravesse a União Europeia em direcção a leste, com a bandeira tricolor dardejando ao vento, passando, como não poderia deixar de ser, pela Hungria, devido aos ancestrais laços que ligam o actual presidente gaulês à terra dos magiares. Rumando depois à Rússia de Puttin para cair nas boas graças deste grande democrata e profundo adepto de uma corrente denominada de neo-rotativismo, consubstanciada numa inovadora versão de alternância entre os cargos de presidente e de primeiro-ministro, tendo em vista o acesso da estatal Total às enormes reservas de combustíveis fosseis que por ali existem. A meta final é provável que esteja em Pequim, capital de um apetecível mercado de mais de um bilião de almas para as exportações francesas, e que tem como imagem de marca a intransigente defesa dos direitos humanos, bem como, a permanente preocupação com as questões ambientais.

Enquanto isso, cá pelo burgo continuaremos a discutir quem paga os prejuízos, disparando argumentos e contra argumentos em todas as direcções, dando a habitual imagem de confusão generalizada, de escassez de ambição e de horizontes limitados. Porque se assim não fosse, certamente, existiria um plano alternativo e argumentos que permitiriam rechaçar o ataque gaulês, evitando o cancelamento desta edição. Mas isso seria exigir demasiado a um país que ficou asfixiado, desde o primeiro dia do novo ano, com a questão do fumo do tabaco e daí para cá ainda não conseguiu parar de tossir.

© Vladimir da Lapa

30 de Dezembro de 2007

Portugal e os portugueses

José Pacheco Pereira, num artigo publicado no Público de 29 de Dezembro de 2007, referia-se à nossa (portuguesa) pobreza, à nossa rudeza, à falta de independência face aos poderosos, grandes, pequenos e médios, os péssimos hábitos de pensar a falta de estudos e trabalho, de leitura e “mundo” que caracterizam o nosso “Portugalinho”.

Por seu turno, Vasco Pulido Valente, escreveu no mesmo Jornal em 30/12/2007, que os portugueses em 2007, ignoraram o mundo, mal se interessaram pelo mísero estado de Portugal e da “Europa” e nem mesmo a eles mesmos conseguiram dar grande atenção.


Quer partilhar a sua opinião sobre tais afirmações?

© Vladimir da Lapa


28 de Dezembro de 2007

Sonhar e Ousar

De uma forma inesperada, fui atacado por uma avassaladora maré de letargia que me fez vegetar, perdido, entre o abstracto e o concreto, numa espécie de limbo. Senti-me assim, por breves instantes, quando num Verão distante lutava contra as ondas na Praia Grande, e fui embrulhado por uma delas, ficando meio inanimado, só tendo acordado quando dei com as costas no areal. Ainda hoje quando vou a esta praia, da qual guardo muitas e boas recordações, sobretudo pelo magnífico horizonte que se consegue desfrutar depois de subir a escadaria íngreme das arribas, agradeço ao mar por me ter devolvido à vida sem qualquer mazela.

No dia de Natal quando passeava na rua que me viu nascer, sentindo o odor de um pedaço de açucena misturado com alecrim que macerava vagarosamente com o indicador e o polegar direitos, matando o tempo que faltava para começar a degustar o cabrito e o tinto rubi da última colheita, ouvi uma buzinadela atrás de mim.

Aproximei-me do automóvel, constatei que lá dentro, no banco da frente do lado direito se encontrava um amigo meu de juventude. Com ele, e com muitos outros, vivi um amplo conjunto de histórias, dignas de constarem de qualquer livro ou filme neo-realista, as quais, um dia mais tarde, quando a compressão do espaço e do tempo não me atormentarem tão acentuadamente, tenciono contar com algum pormenor, para que não caiam no esquecimento.

O meu amigo, numa tarde de Verão, há dois anos atrás, depois de um almoço bem comido, e ainda melhor bebido, como me confessou posteriormente, fez questão de se meter ao volante da sua potente mota. Ao fim de dois ou três quilómetros, e de meia dúzia de curvas, cada uma mais traiçoeira que a outra, entrou em despiste, sendo o seu corpo atlético projectado contra um sinal de proibição de ultrapassagem, o qual ficou literalmente vergado. Levou, ainda, à frente parte de um muro de pedra calcária solta que veda a horta, onde no passado, pela calada da noite, nos deliciávamos com uns pêssegos maravilhosos, satisfazendo assim as nossas necessidades vitamínicas diárias recomendadas pela OMS.

Quando apertámos as mãos, as lágrimas brotaram de imediato, isto porque ao contrário do que muito boa gente diz, os homens calejados pelas intempéries da vida também choram, e não têm vergonha de o fazer. Não lhe pude dar o abraço com que habitualmente nos cumprimentávamos quando nos reencontrávamos noutros tempos, porque está paraplégico.

Disse-me que ao fim de oito meses em Alcoitão tinha feito progressos assinaláveis e que estava seriamente esperançado em chegar mais além. Tendo referido, num tom humorado que estava habilitado com todas as categorias para a condução de uma cadeira de rodas, da qual se poderá vir a libertar, se entretanto, surgir algum método terapêutico inovador que lhe devolva a capacidade locomotora, o que no mundo actual não está completamente posto de parte.

Tal como o mar há uns anos atrás me devolveu à vida, também a conversa com o meu amigo me deu o abanão de que eu estava a precisar. Isto, porque não obstante o conjunto de questões complexas com que nos digladiamos diariamente há que ter sempre esperança, há que sonhar e lutar pela concretização dos sonhos, acreditar que a mudança é possível, não nos deixando enredar pelas teias do “se” e do “talvez”.

É esta a mensagem que quero deixar a todos aqueles que me têm acompanhado ao longo da vida e particularmente a alguém muito especial que certamente irá ler estas linhas e as suas entrelinhas: “há que sonhar e ousar”.

© Vladimir da Lapa

24 de Novembro de 2007

"Este ano não há prendas para ninguém"

É a vedeta do momento, não sei quem pagou o cachet, mas conseguiu-se que aterrasse no Aeroporto da Portela, e se exibisse em algo similar a comícios, jantares, cerimónias diversas e encontros mais ou menos íntimos com o poder político, onde chegou a provar pastéis de bacalhau, só faltou uma exibição de canto, uma daqueles com que brinda os venezuelanos durante as suas aparições televisivas e que já deram origem a gravações em CD para posterior venda ao que parece com bastante sucesso.
Nem mais, o homem que o rei de Espanha mandou calar, pisou o solo do nosso rectângulo, tentando, desta forma, ainda irar mais os “nuestros hermanos”. Não podemos perder de vista a esfera de influência que estes querem manter a todo o custo naquilo que já foi o seu território colonial preferencial e o relacionamento, nem sempre fácil, entre os dois países que dividem entre si o território da Península Ibérica.
Mesmo que se queira olvidar este episódio que catapultou o rei espanhol para os píncaros da popularidade, num momento em que tanto precisava devido à contestação interna em relação à persistência da monarquia, tal não será possível, para desespero dos diplomatas, sempre muito avessos a soluções bruscas, porque circula de telemóvel em telemóvel um toque que tem por fundo a frase da polémica.

E se há coisa que cá tem abundado nestes últimos dias é exactamente a polémica. Desde logo, o Código Processo Penal continua a dar que falar, havendo inclusive quem o classifique de um “código paroquial”, de horizontes limitados, muito bom para tratar de processos de “pilha galinhas”, mas completamente desadequado para combater a grande criminalidade. Começando a “vox populi” a sussurrar, muito baixinho que existirão alguns interesses obscuros por entre as linhas daquele dispositivo legal.
Ao falar de legislação penal, não poderia deixar de referir a passagem à reforma do Doutor Jorge Figueiredo Dias, o “papa” do Direito Penal português, e uma das grandes referências a nível internacional nesta matéria, autor do Código Penal e do Código de Processo Penal, ainda em vigor, não obstante as sucessivas reformas de que têm sido alvo. Sendo estes dois códigos, uma produção de génese coimbrã, não deixa de ser estranho que na última revisão não tenha estado envolvido nenhum dos grandes penalistas daquela escola de direito. Certamente, em breve começarão a ser tecidos alguns comentários em torno deste assunto, porque depois da “aula do pijama” o maior dos penalistas portugueses terá tempo para se debruçar sobre esta e outras questões.

O tom de voz sussurrante, a que atrás me referia, está relacionado com o facto de numa qualquer esquina poder existir “um radar que apanha tudo no ar”, com as inovações tecnológicas que vão surgindo a cada instante, vale mais prevenir do que remediar, longe vão os tempos do grampeamento artesanal das linhas telefónicas, agora tudo se faz com elevado grau de sofisticação.
Por isso, além de terem fechado a “Ginjinha do Rossio”, local onde de quando em vez me deliciava com aquele verdadeiro néctar dos deuses enquanto ouvia as novidades contadas pelos engraxadores, e de, entre outras coisas, no Verão terem calcorreado os areais algarvios apreendendo deliciosas bolas de Berlim, os implacáveis inspectores da ASAE decidiram irromper Lisboa fora, apreendendo diversos equipamentos que poderiam ser utilizados na prática de escutas ilegais. Tentando assim sossegar meio mundo que andava em pânico com a possibilidade de devassidão da sua vida íntima, a qual, na maior parte dos casos, contem intimidadas problemáticas. Mas o sossego é aparente, porque equipamentos idênticos ou mais sofisticados podem ser adquiridos aquando de uma simples viagem a Andorra, ou ainda mais facilmente através do comércio electrónico, onde tudo se vende e tudo se compra, sem que tal actividade seja perturbada pela chegada repentina de um qualquer órgão de polícia criminal competente para a sua fiscalização que profira aquela frase sacramental: “os documentos do estabelecimento se faz favor”.

Mas, também os órgãos de polícia criminal, designadamente a GNR e PSP, não ficaram muito bem vistos na fotografia que lhes foi tirada, não sei se com máquina digital ou analógica, pelo Inspector Geral da Administração Interna. Embora tenha de concordar com alguns dos pontos focados, não nos podemos esquecer, entre outras, de três coisas: as Forças de Segurança estão num processo de transição, o modelo actual, certamente, não será o definitivo e ainda demorará algum tempo a alcançar a tão almejada estabilização; por outro, lado Portugal continua a ser um dos países mais seguros do mundo, a tal facto não será alheio o papel das polícias, não obstante o mar de dificuldades em que todos os dias navegam e alguma adjectivação que lhes é dirigida; finalmente, um polícia ou um guarda, ante de mais é um homem, não é um computador, além de todo um vasto conjunto de conhecimentos técnicos e tácticos, têm de dominar um acervo legislativo em muito superior àquele que a maior parte das pessoas deste país relacionadas com a aplicação da lei dominam, têm de tomar decisões ao segundo, numa rua, numa viela de um bairro degradado, num ermo, num condomínio privado, portanto, nos mais variados locais e perante os mais diversos estratos sociais. Actuações que depois serão analisadas e escalpelizadas no conforto de um gabinete, longe de todo o quadro circunstancial onde ocorreram, dando origem às mais diversas interpretações.

Finalmente, ficou-se a saber que existirão movimentações para o surgimento de uma aliança entre patrões e sindicatos, a qual poderá desembocar numa greve geral. É a imagem do desespero, num país com 444 mil desempregados, onde cada contribuinte paga 671 euros em impostos e cada português deve, em média, 12 mil e quatrocentos euros à banca.
Mas, anestesiados pela propaganda, pela publicidade e pelas emoções do futebol, vamos caminhando em direcção aos dois próximos marcos do calendário, o Natal e a passagem de ano, calcorreando os corredores dos centros comerciais e de outros espaços similares, os quais ao que parece duplicarão até 2010, olhando as montras e contando os trocos, tentando desta forma conciliar os desejos típicos desta altura do ano com os magros recursos monetários, objectivo cada vez mais difícil de alcançar.
Daí que hoje, enquanto tomava café, no país real, tenha ouvido, na mesa do lado, a seguinte frase lapidar: “este ano não há prendas para ninguém”.

© Vladimir da Lapa

2 de Novembro de 2007

À escuta


De repetente, o país acordou do torpor estival, e na sequência de uma entrevista dada pelo
Procurador Geral da República, onde este ilustre magistrado judicial afirmava que até o seu telemóvel poderia estar sob escuta, as cerca de dez milhões de almas que ocupam este rectângulo à beira mar plantado, começaram a suspeitar, em bloco, que também o seu “cantante” pudesse estar a ser devassado, pois, de 2002 até hoje, terão sido efectuadas cerca de 52 mil escutas.

No melhor estilo, de uma forma desembaraçada e acutilante, lá foi o Procurador Geral à Assembleia da República, ser submetido a uma verdadeira prova oral sobre as escutas telefónicas e sobre as declarações prestadas na imprensa, sendo do consenso geral que saiu dali em ombros, tendo deixado incomodados e agastados alguns dos interpelantes, o que foi perfeitamente visível na forma como se remexiam na cadeira, e nas respectivas expressões faciais.

Conseguindo, assim, chamar a atenção para uma questão que desde há muito tempo permanecia na penumbra, fazendo soltar um jorro de notícias e de denúncias, mais ou menos anónimas, cujas consequências ainda são imprevisíveis.

Sendo o tema de conversa dominante, nos cafés, nos transportes públicos, nos restaurantes, nos locais de trabalho públicos e privados, não faltando quem fale, prontamente e sem hesitações, de alguma situação similar em que se tenha visto, ou ainda esteja envolvido. De repente, os milhões de detentores de telemóvel que habitualmente deambulam pelo extremo oeste da Península Ibérica, começaram a ouvir uns estalidos esquisitos quando estabelecem os mais variados tipos de ligações, sejam elas perigosas ou não, de forma análoga a uma epidemia de fraca visibilidade mas de grande intensidade.

E, para adensar este clima de suspeição generalizada, o público, em geral, ficou a saber aquilo que alguns, em particular, já sabiam ou desconfiavam: além das entidades policiais, há detectives particulares a fazer escutas, nas mais diversas modalidades e para os mais variados fins, há aparelhos de escuta que podem ser adquiridos ao virar da esquina, e pasme-se, consta que alguns destes detectives privados trabalharão para serviços oficiais em regime de “outsourcing”.

Quanto a esta última vertente vai ao encontro das tendências da privatização das funções do Estado tão amplamente propaladas pelos governos ocidentais, muito bem espelhado no livro “Entidades Privadas com Poderes Públicos”. Mas, nunca se pode perder de vista que foi essa ânsia de privatização que, em grande parte, nos EUA, a pátria de todas as liberdades e que está divinamente encarregue de as difundir à escala global, foi responsável pela amplitude da devastação provocada pelo furacão Katrina em Nova Orleães, devido ao desinvestimento do governo federal na satisfação do núcleo essencial das necessidades básicas dos cidadãos.

Também, o filme “Corrupção”, que estreou esta semana, se inicia com uma referência às escutas telefónicas. Devido às expectativas criadas, não resisti à tentação de me sentar numa sala de cinema e assistir à sua exibição. Ao contrário das notícias que têm sido veiculadas, o filme está muito bem concebido, e eu que até nem sequer li o livro, compreendi perfeitamente a mensagem que o mesmo quer transmitir. Alegra-me o facto do filme, não obstante todos os ventos e marés contrários, conforme foi divulgado por diversos órgãos de comunicação social, ter conseguido encher as salas de cinema onde foi exibido. O que, para desespero de algumas mentes, mais ou menos brilhantes, não sucede com a maior parte das películas nacionais e estrangeiras.

Gostei ainda de ver, pelo ridículo da situação, alguns “habitués” do nosso “mapa cor-de-rosa” a tecerem considerações menos abonatórias sobre a película, as quais não são muito difíceis de compreender, tendo em conta os contornos do filme. E, num dos casos, esse comentário foi antecedido por uma referência elogiosa à forma como se desenrolou o último enlace matrimonial do Presidente do Futebol Clube do Porto, o qual até contou com a presença de um ex - Presidente da República; enquanto, de acordo com a opinião do ilustre comentarista, a festa de estreia do filme foi o expoente máximo da parolice, tendo sido, apenas, servidos pedaços de morcela e farinheira aos distintos convidados. Rematou com uma frase lapidar: “arquive-se o processo e o filme”; só que este último encerra com a expressão “continua”. Espero, muito sinceramente, que o “continua” consiga prevalecer sobre o “arquive-se”.

Até parece que ainda estamos naquele Portugal bafiento e campónio que o Miguel Sousa Tavares descreve no “Rio das Flores”, o qual, literalmente, devorei de fio pavio. Por isso, sinto-me como o Diogo Flores, com uma necessidade premente de ir para além dos horizontes deste ensolarado rectângulo, onde, cada vez mais, não se vive, mas sobrevive ou vegeta, tudo se subordinando ao “talent de rien faire et bien paraitre”.

© Vladimir da Lapa

26 de Outubro de 2007

A desconfiança


Segundo uma notícia da Lusa, “os portugueses são o povo mais desconfiado da Europa Ocidental e ocupam a 25ª posição entre 26 países num estudo da OCDE destinado a medir a amplitude da desconfiança e falta de civismo dos diferentes povos recenseados”.

Gostaria de conhecer a opinião dos visitantes e das visitantes sobre esta questão.


© Vladimir da Lapa

20 de Outubro de 2007

Oxigenação


Enquanto esperava por uma mesa num restaurante da zona saloia, nos arredores de Lisboa, para saciar os meus desejos de leitão, não sei muito bem porquê, na minha mente começaram a passar imagens de dois Betos; o “Beto Ginja” e o “Beto Semedo”, com os quais me cruzei em momentos e por motivos diversos.

I
Beto Ginja

O Beto Ginja nasceu em Portugal e viveu parte da sua vida, no meio de uma pobreza extrema, numa barraca de madeira, coberta de chapas de zinco, chão áspero de cimento aproveitado dos restos de alguma casa em construção, tanque de lavar à porta, calor abrasador no Verão, frio de rachar no Inverno.

Foi criado ao sabor dos impulsos que o garrafão de vinho tinto ia provocando nos seus progenitores. Depressa abandonou a escola, porque não conseguia compreender nada daquilo que a D. Edite escrevia no quadro preto. Sendo por isso amplamente brindado com umas valentes palmatoadas distribuídas uniformemente pelas duas mãos, uma questão de equilíbrio e compensação, como fazia questão de frisar esta ilustre e brilhante pedagoga, cujo nome foi dado a uma rua para que as suas virtudes sejam para sempre recordadas. Uns anos mais tarde veio-se a perceber que afinal o problema não estava na compreensão, mas na visão.

Quando os óculos chegaram já o “Beto Ginja” trabalhava o mármore há alguns anos, no meio do pó e da lama. Foi no meio desse pó e dessa lama que conheceu a Alice, e com ela se imaginou a voar em direcção ao paraíso, onde quer que isso ficasse. Só que a Alice era uma moça de muitos atributos, daquele tipo de mulher que não deixa nenhum homem indiferente. Aliás, na apresentação e publicitação de qualquer colecção de lingerie, bateria, aos pontos, sem margem para dúvidas, a Cláudia Vieira e outras afins que por aí vegetam em painéis publicitários, tornando menos atrozes as esperas nos semáforos e nas filas de trânsito a uma significativa fatia da população masculina portuguesa.

Sendo disputada, em permanência, pelo Beto Ginja e pelo patrão de ambos, Manuel Maravilhas. Este último, homem de muitas mulheres e de muitos mais filhos, habitual frequentador das consultas de psicologia, dança e outras actividades proporcionadas pelas funcionárias das casas de alterne das redondezas, onde era possuidor de uma inenarrável colecção de garrafas com bebidas espirituosas das mais diversas proveniências.

Alice viu que só podia fugir ao pó e à lama, alcançando o seu país das maravilhas se deixasse de resistir aos avanços do Manuel. E num ápice, com os seus longos cabelos negros a dardejar o vento, equipada de óculos de sol topo de gama, passou a sentir a maciez do revestimento em couro do banco direito do descapotável, no qual o patrão habitualmente se pavoneava.

Beto Ginja não gostou muito desta história, acima de tudo porque, na rua, no trabalho, no café, foi alvo dos mais variados comentários, todos eles dignos de constarem num dos Autos de Gil Vicente. Como tinha visto, ao longo da sua vida que todos os problemas se resolviam com recurso à força, foi também aí que procurou solução para a disputa em torno da Alice. Aguardou, pacientemente. Até que um dia, Manuel Maravilhas seroou no chiqueiro que assumia a designação de escritório, quando saía, Beto Ginja desferiu-lhe, com toda a força do seu corpo e da sua alma, uma pazada. Desfez-lhe a cabeça, pejando de sangue o escacilho que de uma forma desordenada e irregular cobria o chão.

Antes que aparecesse alguém, enfiou o corpo do Maravilhas na bagageira do descapotável e aplicando os conhecimentos adquiridos a conduzir o empilhador, levou-o até uma lagoa próxima, fazendo-o desaparecer na água que servia para abastecer todas as casas das redondezas.

No regresso matou o seu fiel Bobi, aspergiu com o sangue deste o local onde estava o sangue do finado, abriu uma cova, enterrou o cão, pôs-lhe uma cruz em madeira em cima e aguardou serenamente o desenrolar dos acontecimentos.

Acabou por ser preso ao fim de uma semana, quando umas manchas de óleo começaram a aparecer espaçadamente na lagoa. Era o descapotável do Maravilhas com o seu corpo no interior, para grande desespero da população que pensava tratar-se de petróleo e que utilizava a água para beber e para lavar, mas também para grande desespero da Alice que viu o país das maravilhas a desaparecer à velocidade de uma estrela cadente.

II
Beto Semedo

Aterrou em Lisboa vindo de Cabo Verde, ainda miúdo, com os pais, cheios de esperança numa vida melhor do que aquela que levavam em Santo Antão, à semelhança daquilo que aconteceu com milhares de portugueses que a pé, de carro, mas sobretudo no Sud-Express transpuseram montes e vales em busca do “El Dorado” francês.

Conheci-o já mais tarde em ambiente de caserna, depois de ter sido caldeado no ecossistema muito “sui generis” dos bairros problemáticos da Amadora e arredores. Enquanto dedilhava na sua inseparável viola com os dedos calejados pelas agruras da vida no subúrbio, confessou-me que tinha um rumo traçado para a sua vida e que iria perseguir o seu sonho a todo o custo.

Despida a farda e transposta a porta castrense, depressa regressou ao seu círculo de amigos e conhecidos, tocando em festas africanas na noite lisboeta e de quando em vez na Holanda, subindo sempre de degrau em degrau na escada da fama, até que lhe perdi o rasto.

Um sábado destes, estava descansadamente em casa a ler um daqueles extensos artigos do Bérnard da Costa quando a minha atenção foi desviada para uns acordes tipicamente africanos que ecoavam na caixa mágica. Olhei fixamente para o ecrã e reconheci imediatamente o Beto Semedo, com alguns anos em cima, numa breve entrevista após a sua consagração no Coliseu que por ironia do destino fica na Rua das Portas de Santo Antão em Lisboa.

Afinal o Beto Semedo, tinha perseguido o seu sonho e conseguira-o transformar em realidade. Desconheço ainda hoje os contornos do sucesso, pode ser que um dia destes nos cruzemos para aí numa dessas esquinas da vida e possamos pôr a conversa em dia.

Entretanto, como vagou mesa no restaurante, chamaram-me e dei início ao lauto e opíparo repasto. Quando levei à boca o primeiro trago de espumante Murganheira, senti que as suas bolhas me oxigenaram o cérebro, conseguindo nesse momento descobrir que estava a pensar nos dois Betos, porque havia no Sporting, ainda não há muito tempo, um futebolista chamado Beto e o restaurante tem o mesmo nome que um outro ex-jogador desta equipa de futebol; a qual não colhe, de forma alguma, as minhas preferências, uma vez que tanto na alegria como na tristeza sou benfiquista.

Fiquei a saber pela comunicação social que o espumante servido, depois da maratona negocial do Tratado dito de Lisboa, foi Murganheira, talvez, também, com o intuito de oxigenar o cérebro dos dirigentes europeus de forma a dar-lhe maior clarividência para o futuro do velho continente. Embora me tivesse sentido plagiado nos meus gostos, tolerei a situação, uma vez que é “a bem da Europa”.

Começo a suspeitar que esta bebida tem propriedades terapêuticas que ainda não foram devidamente estudadas.

© Vladimir da Lapa

14 de Outubro de 2007

Burburinhos

Parece que as semanas correm vertiginosamente em direcção ao Natal. Nalgumas ruas e montras, já foi dado o sinal de partida para a colocação da indumentária natalícia, sem que tenha passado, sequer, o marco do Dia de Todos os Santos. Por este andar, dentro em breve, quando terminar a época do “papo ao sol”, já viremos com o carro devidamente atafulhado daquelas inutilidades que habitualmente designamos por presentes de Natal. Assim, não corremos o risco de sermos surpreendidos pela chegada da noite de 24 para 25 de Dezembro, sem que nos tenhamos precavido.

Mas, tal como o Alfa Pendular não tem uma velocidade constante na ligação Lisboa – Porto, havendo locais e que circula acima dos 200 km/h e outros onde não passa dos 50/60 km/h, também as semanas têm dias mais calmos, pelo que tive tempo para me deter nalguns acontecimentos relevantes.

Desde logo, quero realçar o facto do Prémio Nobel da Paz ter sido dividido entre o ex-vice presidente dos Estados Unidos (Al Gore) e o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, tendo esta escolha sido justificada pelos esforços de ambos na construção e disseminação de um maior conhecimento sobre as alterações climáticas de origem humana e no lançamento das bases para as mudanças necessárias para conter essas mudanças.
Trata-se de um problema muito grave, e do qual devemos tomar consciência e adaptar um “modus vivendi” consentâneo com essa tomada de consciência, sem contudo cair em fundamentalismos, devido às suas implicações actuais e nas gerações vindouras. Por cá, não obstante termos um Primeiro-Ministro que já foi Secretário de Estado Adjunto do Ministro do Ambiente e mais tarde Ministro do Ambiente, os atropelos nesta matéria são constantes. Com efeito, basta citarmos alguns casos: as suiniculturas e respectivos dejectos; os esgotos que são lançados sem tratamento nos rios; a construção clandestina em áreas protegidas; as areias que de uma forma descontrolada, se vão retirando dos rios provocando impactos graves na costa marítima; os lixos das mais diversas proveniências que são abandonados ao acaso por empresas pouco escrupulosas, mas muito ciosas do lucro fácil; o escarro, a ponta de cigarro, a pastilha, a fralda descartável que são projectados directamente para o chão ou através da janela de um qualquer veículo em movimento.

Depois, não poderia deixar passar em branco, o burburinho provocado pela deslocação de dois polícias às instalações do Sindicato dos Professores da Região Centro na Covilhã. Havendo aqui um desencontro de sinais entre o titular da pasta da Administração Interna e o Inspector-Geral da Administração Interna.
Enquanto para o primeiro não houve nada de anormal, para o segundo a actuação policial e judicial apenas é legítima se ocorreram infracções no decurso da manifestação. Segundo a Governadora Civil de Castelo Branco, os polícias iam à Câmara Municipal e pelo caminho passaram pelo sindicato.
Acresce a tudo isto, ainda, a polémica em torno da visita do Primeiro - Ministro a Montemor-o-Velho e da actuação da GNR, relativamente, a uma manifestação (não autorizada) do mesmo sindicato.
Com ar de grande autoridade, Fernanda Câncio, na sua coluna do Diário de Notícias, escreveu que a responsabilidade de tudo isto, em primeira linha, cabe à legislação arcaica e desajustada, datada de 1974, quando António de Spínola era Presidente da República, e Vasco Gonçalves ocupava a cadeira do Primeiro - Ministro num governo provisório. Milagrosamente, tudo se resolverá, pelo menos é essa a convicção generalizada de alguns sectores, através da publicação de nova legislação sobre a matéria, elaborada num ambiente de profunda democracia. Espera-se que tal qual quadro legal não seja tão controverso como o foram e ainda estão a ser, o Código Penal e o Código de Processo Penal.

Por falar em milagres, contando com a presença do Secretário de Estado do Vaticano e do Cardeal Saraiva Martins, prefeito da Congregação da Causa dos Santos, lá foi inaugurada a nova Igreja da Santíssima Trindade em Fátima, tendo a obra sido alvo dos mais diversos tipo de apreciações. Para grande desilusão dos presentes e dos ausentes não se tornou possível a realização do denominado “dois em um”. Isto porque o processo de canonização dos videntes de Fátima, Jacinta e Francisco Marto, foi adiado. Na base do abandono parece ter estado uma aliança entre a fé e a ciência, coisa que certamente terá posto muita gente a revolver-se na tumba, e mercê dessa aliança chegou-se à conclusão que a explicação para a cura da diabetes de uma criança, filha de emigrantes portugueses na Suíça, também poderia residir na ciência, afastando-se a hipótese de um milagre atribuído a Francisco e Jacinta.

Irá estrear, na próxima terça feira, dia 16 de Outubro, uma série de 18 episódios sobre a guerra colonial, do ultramar, de libertação, ou muito simplesmente a “Guerra”, como lhe decidiu chamar Joaquim Furtado, o seu autor, personalidade de vulto do mundo jornalístico que dispensa qualquer tipo de apresentações. Não vou perder a oportunidade de rever todo este momento histórico, por dois motivos. Em primeiro lugar porque procuro sempre conhecer, da forma mais aprofundada que puder, o passado, para assim poder compreender melhor o presente. Em segundo lugar, porque embora fosse relativamente novo, este período marcou-me profundamente, uma vez que a partir de determinado momento assumi o papel de escriba oficial da minha aldeia, e uma parte significativa das cartas que escrevia era a pedido das mães e dos familiares, receosos, ansiosos, desesperados, para os jovens que se encontravam nessa guerra, utilizados como carne para canhão e mão-de-obra barata, nunca lhes tendo sido reconhecido tudo aquilo que tiveram de suportar e que ainda suportam os sobreviventes tanto a nível físico como psicológico.

Uma outra guerra está em curso, na zona das linhas de Torres, mais concretamente em Torres Vedras, local escolhido para a realização do Congresso do PSD. Apresentando-se aí, pronto para todo o serviço o “soldado político” Pedro Santana Lopes, a Luís Filipe de Menezes, novo “general” do PSD. Estando este último a reestruturar o estado-maior desta força partidária, tentando arregimentar para o efeito o maior número possível de nomes sonantes, para depois poder lançar o seu exército noutras conquistas.
Operou-se assim o renascimento político deste “soldado”, cujo mediatismo andava um pouco pelas ruas da amargura, espelhado numa menor amplitude na cobertura, por parte das revistas cor-de-rosa, da sua digressão algarvia, bem como, no episódio protagonizado durante uma entrevista à estação de Carnaxide, na qual ao sentir-se trocado pelo “Special One” José Mourinho, se levantou e abandonou as instalações.
O tempo nos dirá se associado a este renascimento, não veremos uma reprodução, tão frequente nas relações interpessoais, da fábula da mosca e da aranha.

© Vladimir da Lapa

7 de Outubro de 2007

Uma desgraça nunca vem só


Recentemente, constatei que certas zonas de Lisboa se converteram em autênticas frentes de batalha de uma guerra: a guerra do estacionamento. Nesta guerra, temos por um lado os automobilistas (um bando de perigosos infractores), e por outro os fiscais da EMEL, sempre prontos a actuar, em conjugação de esforços com a Polícia.

Por diversos motivos, tenho de me deslocar, diariamente, a uma dessas frentes de batalha – a Avª 5 de Outubro – para o efeito, faço uma série de tentativas de aterragem nalgum lugar de estacionamento vazio, num circuito frenético entre a antiga Feira Popular e a Maternidade Alfredo da Costa, de forma análoga a um qualquer piloto pairando sobre a Portela, num dia de nevoeiro, aguardando pelo momento em que seja possível fazer-se à pista.

Normalmente, à terceira tentativa consigo encontrar um local para estacionar, pago a peso de ouro. Dando assim o meu contributo diário para a manutenção da máquina burocrática e de toda a restante engrenagem que ao longo dos anos se foi instalando na Câmara Municipal de Lisboa.

Um destes dias, quando me preparava, conjuntamente com outro cidadão, para depositarmos a nossa comparticipação, numa das máquinas, cirúrgica e meticulosamente espalhadas, para esse fim, pela malha urbana de Lisboa, chegou um funcionário da EMEL. Depressa me apercebi que estava encarregue de recolher as moedas que vão caindo ao longo de um determinado período de tempo no receptáculo de cada uma dessas verdadeiras caça níqueis.

Por esse motivo, tive de esperar algum tempo, com o meu companheiro de infortúnio, enquanto decorria a citada operação. O funcionário, após diversas investidas, lá conseguiu abrir a máquina, só que entretanto e sem que ninguém consiga descobrir o porquê de tal facto, as moedas espalharam-se pelo pavimento numa sinfonia característica.

Tal facto, começou a irritar o outro cidadão, tendo este me confidenciado que tinha a tensão alta, andava permanentemente stressado e que todo aquele quadro era a cereja em cima do bolo, num dia em que tudo estava a correr mal, até um monte de merda de cão já tinha pisado, não obstante dominar, com uma elevado grau de cientificidade, a geografia defecatória canina daquela artéria lisboeta, acho que numa versão similar ao mapa de um campo de minas.

Por isso, logo que o zeloso funcionário da EMEL apanhou a última moeda e voltou a fechar a máquina, dei a minha vez ao eminente “geógrafo stressado”, pondo em prática, de uma forma inconsciente, os conhecimentos sobre empatia que adquiri no livro “A Inteligência Social” do Daniel Goleman, ou seja reparando na pessoa, sentindo o que ela sente e actuando para a ajudar.

De uma forma apressada, meteu as moedas na máquina devoradora. Quando premiu no botão para emissão do talão, este saiu em branco, apenas com o verso preenchido. O homem espumava de raiva, depois de ter chamado “pai” e “mãe” a toda a gente que ocupa e detém algum poder neste país, lá seguiu para o carro, com o talão em branco, tendo-o colocado em local visível, de acordo com as normas regulamentares, pois tinha mais onde aplicar as moedas que lhe restavam do que numa máquina, sobejamente odiada, na esperança que saísse daí um talão de estacionamento completamente preenchido na frente e no verso.

Pelo contrário, eu fui bafejado pela sorte (ao menos uma vez na vida) e o meu talão saiu sem imperfeições. Despedimo-nos numa esquina, indo cada um à sua vida, depois de satisfeita a nossa cafeínodependência, tendo-se ventilado, entre nós dois, a possibilidade de tornar polivalente o pessoal da EMEL e outros funcionários da autarquia, declarando guerra às “minas” largadas diariamente pelos caninos alfacinhas ao longo dos passeios e espaços verdes da capital, dando-se assim um ar mais higiénico à cidade.

Passadas que foram duas ou três horas, regressei ao local e verifiquei que junto do veículo do malfadado “geógrafo” pairava uma esbelta funcionária da EMEL que com toques de elevada sensualidade, acabava de deixar uma “prenda” no limpa pára-brisas, certamente, devido à ilegibilidade do talão.

Não sei como este “perigoso infractor” terá reagido, contudo, tem aqui plena aplicação aquela velha máxima, segundo a qual, uma desgraça nunca vem só, e tal como refere Miguel Cervantes, no “El coloquio de los perros”, procura o “desgraçado mesmo que ele se esconda nos cantos mais remotos da terra”.

© Vladimir da Lapa